
O volume do rádio marcava o nível 15 enquanto uma dupla sertaneja que até então não conhecia fazia a alegria do condutor do carro. Estávamos no Vale do Araguaia, uma lendária região do Goiás mais profundo em que é possível se contar cinco milhões de cabeças de boi! Por questões obvias não me preocupei em tentar conferir o número, mas a imensidão das pastagens e o borrão branco das boiadas no horizonte validam de forma empírica a sensação de ser aquela a verdadeira "terra do boi". Não há naquele canto hora que seja tarde e conversa que seja ruim, desde que o assunto seja boi. No mesmo asfalto em que passam caminhões lotados de animais rumo a matadouros e fazendas, ainda se encontram as velhas comitivas - com peões dormindo em acampamentos feitos de lona em que a sela do cavalo também serve de travesseiro. Não há como não se lembrar do timbre rasgado da viola de Almir Sater e das letras poéticas de Renato Teixeira que tão bem cantam essas paisagens.

Há um toque de mágica naquele Araguaia, cuja noite salpicada de estrelas é o cobertor de quem vive a vida no lombo de um cavalo, entre estradas carregadas de lendas e causos. Assim é, por exemplo, a Estrada do Boi, um pedaço de chão de 120 quilômetros em que as comitivas se esbarram, e num balé especial conseguem passar sem perder ou misturar um animal sequer.
- Dia...
- Dia...
- Quantos bois há nessa comitiva: - perguntou Sérgio, um dos guias a um peão que, animado, tocava uma imensa boiada numa estrada em que poucos minutos antes viajávamos a 150 km por hora.
- São 841 - disse o homem com precisão. Enquanto conversávamos um dos peões tratava de tirar aquele mar de gado da frente do carro. Seria impossível prosseguir sem essa ajuda. Nosso destino estava no porvir de duas fazendas nas cidades de Jusçara e Britânia, cuja reportagem sairá na próxima edição da revista Dinheiro Rural.
Na cerca ali perto, uma fogueira esquentava um caldeirão, cujo cozinheiro cuidava atentamente do rango. Em cinco minutos não havia mais gado a interferir na viagem e, mais uma vez, pisamos fundo rumo ao interior de Goiás.

Havia quase oito horas que eu saíra de casa e naquele momento o estômago estava nas costas. A parada aconteceu em Goiás Velho - uma das nove cidades brasileiras tombadas como patrimônio histórico da humanidade. Uma mistura de Paraty com Ouro Preto. Não bastasse o título de patrimônio da humanidade, o lugar é a terra da poetiza Cora Coralina, cujos versos e história de vida compõem um capítulo à parte na literatura brasileira. Há referências dela por toda cidade e na casa em que morou e morreu, um boneco ilustrando a sua imagem ainda paira na janela que dá fundos a um dos braços do Araguaia.
A viagem prossegue até um das fazendas. Boi é um bicho engraçado. Mesmo bem alimentado sempre arruma um jeito de fazer caquinha. Visitando uma das partes da fazenda, um grupo de garrotes resolveu que boa idéia era comer o retrovisor do carro em que viajávamos. Não estragou muito, é verdade. Mas as marcas dos "dentinhos" estavam lá.
A noite caiu na mesma velocidade que o dia passou. São Paulo nessas horas estava muito distante e me sentia como se há dias estivesse longe de casa. À noite, após o jantar, a solidão se tornou minha amiga, enquanto a lua crescente surgia no horizonte. O pensamento, distante, estava naquela que carreguei no peito até aquele rincão e a vontade de falar com ela sobre aquelas maravilhas se confundia com a frustração de não poder fazê-lo naquele momento.
Nessas horas é que faz falta a conectividade do mundo moderno e tudo que mais desejei é que por ali existisse um cabo de rede a fim de enviar um e-mail ou conversar por telefone. Mas não havia nem um nem outro. Pelo menos não ali e o jeito foi dormir apenas com os pensamentos lá longe com a saudade daquele abraço gostoso. O sono chegou e com ele veio o descanso para às 5h manhã estar de pé para mais uma longa caminhada. Mais estrada, fazendas e pessoas. Muitas histórias e belas paisagens.
Nem bem o olho piscou lá se foi a manhã e pegamos a estrada de volta a Goiás. O boiadeiro estava lá. Na verdade, estava com aquela boiada há 40 dias pelo mundo e ainda havia mais 15 pela frente. Aos poucos, o Araguaia foi ficando para trás e aquelas cenas pareciam mais histórias da vida de outra pessoa, enquanto a capital Goiás se aproximava - quase 400 quilômetros depois.
Com a tarde, veio a chegada ao Aeroporto, a ansiedade de matar a saudade de quem estava tão longe e a volta a São Paulo. Às 23h entrava pelo portão de casa enquanto aquele velho boiadeiro certamente observava as estrelas, lá no Araguaia, na Estrada do Boi, perto de Cora Coralina, no meio de versos de um Brasil que o Brasil não conhece.